sábado, 27 de março de 2010

Resenha - Livro "Wildfire", de Sonia Johnson




Acabo de ler um livro muito importante para minha formação diânica: Wildfire, de Sonia Johnson. Apesar de tê-lo achado muito agressivo, como nas partes em que ela fala que todos os nossos filhos, homens, são monstros e em outra em que ela diz que aids é doença de homossexual – ok, esse livro foi escrito na década de 1980 (rs) –, creio que é um livro muito inspirador, já que a idéia central dele é “fingirmos” que o patriarcado não existe para tentarmos criar uma realidade nova e diferente para as mulheres.

Como a própria autora diz, é um livro para quem quer se tornar livre e, segundo ela, primeiro precisamos nos libertar para depois ajudar a libertar a mente das outras pessoas. Precisamos nos desprogramar de toda a lavagem cerebral que o patriarcalismo nos causou.

Por exemplo, o patriarcado nos ensinou a enxergar que a realidade está fora de nós, quando Sonia explica que a realidade, na verdade, está dentro de nós. Somos nós quem criamos essa realidade a partir de nossas expectativas e crenças, a partir daquilo que percebemos como possível. Portanto, segundo ela, no mesmo instante em que o patriarcalismo não estiver mais vivo em nossos corações e mentes, ele também não existirá mais como realidade.

Sonia faz ótimas observações sobre a militância feminista que realmente me surpreenderam. Por exemplo, diz que a resistência é uma forma de reconhecimento e de aceitação do fato de que não possuímos poder algum. Um simples exemplo de como nossos corpos não são de fato nossos é entregarmos a saúde de nossos órgãos a ginecologistas homens.

Lutamos para que as mulheres tenham direitos, no entanto não paramos para pensar que o sistema legal foi feito para manter o patriarcalismo intacto, já que as leis são feitas por homens. (Apesar de eu não votar, acredito que aqui se justifique a intenção de colocar mais mulheres na política. Aliás, numa pequenina nota de rodapé, Sonia diz que “se o voto mudasse alguma coisa, ele seria ilegal”.)

Johnson diz que o sistema tirânico que existe, de dominação das mulheres por parte dos homens, é um acordo, e que ambas as partes seguem-no “com dedicação”. Sendo assim, só conseguiremos ser livres no momento em que nós mesmas nos libertarmos.
A solução, segundo a autora, é: precisamos nos comportar como se o patriarcado não mais existisse agora, pois um dos crimes mais cruéis deste foi nos ensinar a projetar nossos pensamentos no futuro, em algo que ainda não existe. O futuro só será como queremos se agirmos como queremos que ele seja AGORA.

Uma das questões discutidas no livro, para a qual eu nunca havia tido uma resposta até agora, é o fato de algumas mulheres apanharem dos maridos e ainda assim não os abandonarem. Sei que há uma questão financeira atrás desse fato, na maioria das vezes, mas nunca entendi bem a questão psicológica, que semprei achei que existia. Ela explica que esse homem isola a mulher, para que ela só possa perceber a perspectiva dele e, quando ela sofre, mesmo que esse mesmo homem bata nela, como ela não tem nenhum outro de relacionamento para apoiá-la, como vítima, ela se agarra ao aspecto apoiador e positivo do marido.

Um outro mito interessante que a autora tenta desfazer é o da igualdade. Lutamos tanto por ela, mas toda igualdade requer comparação primeiro, e a comparação significa colocar-se diante de padrões externos, feitos por outras pessoas. Na opinião da autora, o conceito de igualdade é profundamente patriarcal e só é possível para mentes “dualísticas”.

Todos reconhecem que a mulher, atualmente, desempenha diversas tarefas, como a de mãe, profissional e amante. Esquecemo-nos, porém, que esse auto-sacrifício nos foi também imposto pelo patriarcado. Matar-se de trabalhar para ganhar dinheiro ou se matar para cuidar dos outros não são atos tão inocentes assim. A falta de tempo de que todos andamos reclamando tanto tem seu motivo, mesmo que oculto, de ser: manter todos aprisionados ao sistema patriarcal.

Precisamos parar de nos comportar como homens e aceitar que somos diferentes. Precisamos deixar de lado a culpa que o patriarcado colocou por sobre as mães. Precisamos começar a ouvir nossas próprias vozes novamente. O poder está dentro de nós. Só nós mesmas podemos mudar o mundo. Se não começarmos a nos levar a sério, ninguém o fará.

6 comentários:

Gabi disse...

Oi Dani. :)

Não concordo com todas as idéias do livro, que como vc apontou, foi escrito na década de 80, rsssss. Acho o ativismo válido e o lance da igualdade, para mim, não necessáriamente recai na idéia de dualidade. Bom, eu gosto das minhas revoluções sem tiro, rssss. É meu jeito.

Mas achei muito legal a idéia de matar o patriarcado "dentro de nós" primeiro. Acho que nesse ponto, o dianismo ajuda muito, pois dá uma referência espiritual para as mulheres que não têm um ponto de referência feminino para sua espiritualidade.

Bruma Artio disse...

Interessante. Pelo menos dá o que pensar, e isso é muito bom.
Parabéns pela postagem, gosto muito de vir aqui.

Um suave bater de asas.

Green Womyn disse...

Bruma,eu é que agradeço sua visita! :-)

Rose Ramos disse...

Oi Green !

Estou lendo alguns livros que são muito interessantes da autora Riane Eisler, são eles:

- O Poder da Parceria

- O Cálice e a Espada

- O Prazer Sagrado

Eles têm muito em comum com o que você resenhou em seu blog.

Talvez você os ache interessante, fica aí uma dica.

abraço,

Rose

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Rose Ramos disse...

Oi Green

Que legal ! Você já conhecia os livros, eu gosto muito da autora Riane Eisler, quando você conseguir um pouco de tempo para ler "O Prazer Sagrado" você vai gostar muito, mas o livro é muito grande, assusta... rsrsrsrs.. são 500 páginas... eu vou lendo aos poucos.

Obrigada pela visita, seja sempre bem vinda !

abraço,

Rose

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Rose Ramos disse...

Green,

Obrigada pela dica do livro de Laurie Cabot, acabei de colocá-lo na minha lista de leitura :-)

O livro da Merlin Stone, When God was a Woman, comecei a ler, mas ainda não terminei, eu começo a ler vários livros ao mesmo tempo quando estou interessada em algum tema...rsrsrsrs...

Gostei da idéia de trocar idéias sobre o livro da Riane.

Mas é impressionante como estes livros deixam a nossa cabeça a mil... rsrsrsrs...
O livro dela é tão denso, tão cheio de releituras de coisas que aceitamos, engolimos como natural que não são naturais.

Confesso que às vezes minha mente fica congestionada com excesso de informações tão relevantes rsrsrss...

Vamos mantendo contato, Green !

abraço,

Rose

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