quarta-feira, 4 de junho de 2008

Isto é Anarco-Herbalismo

Pensamentos sobre Saúde e Cura para a Revolução

Por Laurel Luddite

Minha caixa de remédios é um conjunto de biorregiôes. Cada pote de plantas contêm uma história (muitas vezes uma história triste de ecossistemas sendo extintos, ou lugares que não existem mais). Me sinto honrada por ter conhecido plantas em seus locais de origem e ter estudado seus usos como medicamentos. Mas para as pessoas que não têm muita sorte em perambular por locais selvagens e distantes, adquirir preparações fitoterápicas, como tinturas, pode ser um elo de ligação com esse tipo de cura.

Como muitas coisas dessa sociedade de consumo, é fácil ignorar as conexões entre uma garrafa em uma prateleira de uma farmácia e uma planta viva, crescendo em algum lugar do mundo. Pode ser difícil saber se a planta cresce a um quilômetro de distância ou em outro continente. Há muita coisa para se dizer sobre nos reconectarmos, e nos reeducarmos sobre as ervas que usamos e colher nossos medicamentos quando pudermos. É assim que conseguiremos construir todo um novo sistema de cura - um que pode nos encorajar e nos ajudar a distanciarmos da estrutura de poder corporativo que a medicina se tornou.

O desenvolvimento de um novo sistema médico, ou a restauração dos modelos antigos, será mais um reforço em nossa rede de segurança para quando o industrialismo falhar. Ela nos manterá vivos e ativos agora, nos últimos dias do sistema, quando tantas pessoas não possuem acesso à medicina industrial, e irá restabelecer nossa conexão com a medicina real, que é a Terra.

Uma alternativa à "medicina alternativa”

O tipo de medicina fitoterápica popular que existe hoje (apresentada pela mídia e os capitalistas verdes como uma outra empolgante moda passageira) trouxe com ela um vago conceito sobre um novo método de cura. As plantas, reduzidas à cápsulas, ou pior ainda, aos seus "ingredientes ativos", são apenas novas ferramentas com que se trabalhar, na mesma concepção que a medicina industrial vê as pessoas, vendo seus corpos como máquinas. Elas se tornam o mesmo que drogas farmacêuticas ou um bisturi: algo para intrometer no corpo-máquina, para bagunçá-lo por dentro. Exceto, é claro, que isso se torna muito menos eficaz, já que as ervas foram retiradas do sistema de cura do qual elas possuem sua energia.

Quando os vendedores de produtos fitoterápicos conseguem uma nova "cura milagrosa", isso pode significar a extinção para a planta. Isso é triste principalmente quando tantas criaturas vivas tornam-se produtos inúteis ou são desperdiçadas em doenças que elas não curam. (Alguém já viu aquele xampu de Equinácea?) O exemplo clássico disso é o Hidraste, (Hydrastis canadensis), uma planta beirando a extinção na natureza. Ela tem alguns efeitos impressionantes no corpo humano mas em sua maior parte tem sido comercializada como uma cura para o resfriado, o qual essa planta não ajudará em quase nada. A propósito, os maiores comerciantes de Hidrastes colhidos na natureza e muitas outras ervas famosas são as corporações farmacêuticas multinacionais. Dada a obsessão da sociedade americana com o Viagra fitoterápico, pílulas de emagrecimento, e estimulantes, a maioria das ervas no mercado estão sendo sacrificadas para essas causas ridículas.

Existe uma alternativa para a "medicina alternativa". Michael Moore, um herborista, autor e professor do sudoeste americano expressou da melhor forma em uma de suas divagações recentes de uma palestra: "Neste país, o negócio fitoterápico gira em torno de substâncias comercializadas recentemente com novas pesquisas, e elas vem deles até nós. Considerando que estamos tentando estabelecer o máximo possível o fato de que nós precisamos de criar uma prática e um modelo que é impenetrável às modas. Nós estamos tentando praticar de uma forma que vem da prática em vez do marketing. Não vindo de cima até embaixo, mas de baixo para a nossa volta. Biorregionalismo acima de tudo. Mantenha-se local. Sem centralização porque a centralização mata tudo."

Herba-Primitivismo

Então nós precisamos de outro maneira de olhar os nossos corpos e as plantas medicinais. Observar os dois como interconectados e em equilíbrio é algo novo para a cultura industrial, mas na verdade é o modelo de cura mais antigo na terra. Nós o conhecíamos antes de sermos pessoas. Os animais sabem como usar plantas para se curarem. Seus exemplos nos rodeiam, desde cães comendo grama até ursos cavando raízes Osha. Provavelmente todas as sociedades humanas tiveram alguma forma de explicar como o corpo funciona e como as plantas medicinais agem em nós.
Uma coisa que todos os herboristas sabem - cães e ursos incluídos - é que um problema de saúde é melhor tratado antes dele começar. Nas sociedades mais primitivas onde as pessoas têm o luxo de ouvir seus corpos é mais fácil identificar um desequilíbrio antes dele se tornar em um estado de doença grave. É aqui que as ervas são mais eficientes. Elas funcionam nesse nível sub-clínico (e portanto invisível para a medicina industrial) de "desequilíbrios" e "deficiência" e "excesso".

Esse sistema velho e novo é sutil e requer uma grande quantidade de auto-conhecimento, ou pelo menos auto-consciência. Ele usa a intuição como uma ferramenta de diagnóstico. A emoção, espiritualidade, e o ambiente tornam-se remédios. O espírito e o ambiente das plantas que nós colhemos afeta suas propriedades curativas, e nosso relacionamento com essas plantas se torna muito importante.

Herbologia Verde

Quando tomamos medicamentos fitoterápicos nós estamos em parte tomando o ambiente da planta. Tudo o que ela comeu e tomou e vivenciou formou o medicamento que você está dependendo, então é melhor que você se certifique que ela tenha do melhor. Quando somos curados por plantas, nós ficamos devendo à elas tomar conta de suas espécies e dos lugares que elas vivem. Coletores de plantas tradicionais geralmente têm uma prece que recitam antes de retirar qualquer coisa da natureza. Eu geralmente digo algo em torno de "Ok, planta. Você me cura e eu tomo conta de você. Ninguém irá construir em cima de você, ou te cortar, ou pegar muitas enquanto eu estiver por perto." Então esse sistema de cura verdadeiro tem em seu coração um ambientalismo profundo e um comprometimento com a Terra.
O conceito biorregional é importante para esse modelo de cura. As ações das plantas em nossos corpos são realmente bem limitados pelos elementos químicos que elas podem produzir da luz do sol e do solo. Para cada erva famosa no mercado que é cortada das florestas tropicais ou cavadas das montanhas, existe provavelmente uma planta com uma ação similar crescendo em sua bacia hidrográfica. Alguns dos melhores remédios para manter uma boa saúde crescem em lotes vagos e jardins negligenciados por todo o mundo.

Anarco-herbalismo

Uma sociedade de pessoas que são responsáveis pelas suas próprias saúdes e estão aptas a coletar ou cultivar seus próprios remédios é uma sociedade difícil de governar. Nesses dias nós estamos dependentes na estrutura de poder do sistema de saúde industrial - a sociedade secreta dos doutores, as escolas de medicina dominadas por pessoas brancas do sexo masculino, os tomadores de decisões corporativos com seus farmacêuticos tóxicos e ganância sem coração e laboratórios cheios de seres torturados. Essa dependência é mais uma coisa nos mantendo presos ao Estado e incapazes de nos rebelarmos com todos os nossos corações ou até mesmo visualizar um mundo sem tal opressão. Com um novo sistema de cura, baseado em auto-conhecimento e na sabedoria de ervas, nós seremos muito mais livres.

Oferecer uma alternativa real ao sistema de saúde irá ajudar a acalmar alguns dos medos das pessoas sobre retornar a um modo de vida anarquista, centrado na Terra. Existe uma falsa segurança nos homens com suas grandes máquinas, prontas para te colocarem de volta (se você tiver dinheiro o suficiente. O que é ignorado é o fato de que a sociedade industrial causa a maior parte das doenças que as pessoas temem. Vivendo livres em uma Terra que cura enquanto somos cercados por uma comunidade verdadeira e nos alimentamos de um alimento real provará ser um remédio melhor do que qualquer coisa que você pode comprar.

Que passos devemos tomar agora para criar esse novo sistema de medicamentos? Nós todos precisamos aprender o que podemos sobre nossa própria saúde. Isso pode ser pelo treinamento em um ou mais de um dos modelos de sobrevivência da cura tradicional e/ou pela auto-observação. Como você se sente quando você está começando a ter um resfriado? Que tipos de problemas aparecem repetidamente, principalmente quando você está estressado? Se você é uma mulher, qual a duração do seu ciclo e como o sangue se parece? Entendendo como os nossos corpos agem em tempos saudáveis pode nos ajudar a reconhecer os estágios iniciais de doenças, que é quando as ervas são mais proveitosas.

As pessoas que possuem alguma experiência em curas (no sistema tradicional ou industrial) podem ser de grande ajuda para aqueles de nós que estamos apenas aprendendo. Os curadores que estão trabalhando para formar este novo modelo, seja coletivamente ou por suas práticas individuais, devem ter em mente que o compromisso com a Terra e uma forma descentralizada são centrais para a medicina realmente revolucionária.

Nestes tempos de mudança, tudo está sendo examinado e ou destruído e reconstruído, ou criado de nossos corações. O industrialismo tem afetado todos os aspectos de nossas vidas - nós estamos apenas começando a perceber o quanto foi perdido. A medicina é somente uma parte da máquina que nós temos que tomar de volta e recriar em uma forma que funciona para a sociedade que nos tornaremos. Toda erva, pílula, e procedimento devem ser julgados pela sua sustentabilidade e acessibilidade para pequenos grupos de pessoas. Nós podemos começar com nós mesmos, dentro de nossas comunidades e círculos, mas devemos nunca pararmos de expandir até que a medicina industrial enferruje em um túmulo esquecido, uma vítima de seus próprios desequilíbrios.

Publicado na Green Anarchy #16 (Back to Basics Vol.3 - Rewilding)

PS: Não sei de quem é a tradução, senão daria o crédito a quem disponibilizou este magnífico texto em português!

2 comentários:

eu sou anfibia disse...

MARAVILHOSO POST!!!

S. Thot disse...

São tantas as palavras-chave neste texto: descentralização, poder, finanças, auto-conhecimento, sintomas iniciais...

Mas tudo gira em torno da posse do próprio corpo. De quem deve possuí-lo: se eu mesmo os toda uma cadeia de poder que começa pelos vendedores do supérfluo até os médicos e as grandes indústrias farmacêuticas.

E tudo termina onde começa. Em nós mesmos e na nossa vontade de servir ou não a este sistema de coisas.

Saudações libertárias.


S. Thot